Aquilo que o Diabo é – Parte 2

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O Verão tinha começado de forma calma. O tempo era de reencontro com os amigos de infância, que estavam também de férias escolares, e com aqueles que, morando noutros pontos do país com os pais, ou no estrangeiro, regressavam por alguns meses.

Noites quentes, ideais para beber cerveja com os amigos no café da aldeia, ficar depois na rua a conversar até tarde. Junho passou, num repente, e chegou, galopante, um despreocupado Julho.

Mas, os primeiros dias de Julho traziam no ventre um sobressalto. Aurora, futura enfermeira, foi chamada por uma vizinha de urgência a casa da avó. Munida de um kit básico, o único que o dinheiro lhe permitia comprar ainda, correu pela rua, para encontrar uma avó prostrada na cama, dizendo não ter forças para se levantar.

A avó Ermelinda, senhora anafada, mãe do pai, costumava entrançar o cabelo comprido e prendê-lo numa roda no cimo da cabeça. Apesar dos 76 anos, tinha poucas brancas e poucas rugas. Só as mãos, calejadas do trabalho do campo, denunciavam a verdadeira idade e cansaço. Olhos pequeninos castanhos, luzidios, boca pequena, ou sempre contraída, em sinal de desagrado, nunca se entendeu bem. Não se sentia próxima daquela parente, ainda que mandasse o bom senso que a ajudasse.

-Avó, o que sente?

-Aurora, não tenho muito tempo de vida. Consigo senti-la a fugir-me. O mesmo discurso desde há

-Não diga disparates. Alimentou-se bem hoje? O que almoçou? Tem bebido água? É que com este calor, já se sabe… – a neta tentava fazer conversa, enquanto tirava da malita um aparelho de medir a tensão

-Desculpa, minha filha, desculpa… – disse a idosa, pegando-lhe com força no braço, que pareceu entrar em combustão.

E foram as últimas palavras da avó Ermelinda, que se findou, perante o olhar surpreso da jovem.

Seguiu-se o funeral, com muito choro, como manda a tradição. Vieram familiares de longe, para regozijo dos primos, que, enquanto os pais se consolavam, aproveitavam para pôr a conversa em dia, e dar umas escapadelas para fumar cigarros, disfarçando o vício com o momento tenso que atravessavam.

A autópsia da Avó Ermelinda foi inconclusiva – escreveram no relatório que o coração parou. Foi isso – parou. Não havia registo de doença cardíaca, e culparam-se os 76 anos e uma vida dura no campo.

A Avó Ermelinda nunca foi uma mulher comum. Acusada por todos de cultivar uma frialdade exemplar, vivia rodeada de livros pouco ortodoxos, ainda no tempo em que uma mulher ter livros era estranho. Sabia muitas rezas, para muitos fins, e conhecia as ervas todas do campo. Na varanda, tinha arruda, por muitos considerada numa provocação.

Na aldeia, chamavam-lhe “bruxa”, sem que Aurora tivesse alguma vez percebido se era uma alcunha pejorativa ou não. Ela própria a usava, por norma precedido de “a velha”. A avó não parecia importar-se.

E, com um punhado de terra arremessado para cima de um caixão cor de mel, findou-se a existência no plano terrestre da Avó Ermelinda, com o padre, não muito mais novo que ela, a prometer um paraíso cristão, e um reencontro no dia do Juízo Final.

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