Aquilo que o Diabo é – Parte 1

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Tinha um vestido às flores, com um atilho ao pescoço, que não reconhecia. Uns sapatos bonitos, rasos, com um lancinho por cima do peito do pé. O cabelo penteado, preso pela metade, num apanhado elegante. As mãos cuidadas, ornadas com anéis, que, esses sim, reconhecia como fazendo parte do seu guarda-joias das fantasias.

Não havia cor em lado nenhum. A pele era cinzenta, a rua era cinzenta, as árvores estavam cinzentas. Até o céu estava cinzento, e nada indicava que fosse chover.

Aurora caminhou nas ruas da aldeia que bem conhecia. Juno estava deserta. As casas fechadas, os carros parados. Correu para casa, para a sua casa. Tentou abrir as portas, mas estavam lacradas. Gritou, o mais que pôde. E nada. Só silêncios em troca.

“Que raio! Isto deve ser um sonho. Daqui a nada já acordo, e pronto.” – pensou a rapariga, tentando acalmar os nervos que lhe cresciam. E o desespero. Juno acordou triste. Os sinos da igreja tocaram sinais.

Era uma jovem. Uma pobre raparigada, de 19 anos, que naquela manhã não acordou.

Filha da terra, estava a estudar numa universidade a uma centena de quilómetros, o que era mais do que motivo para que as gentes lá do sítio só lhe pusessem as vistas em cima em alguns fins-de-semana e nas férias grandes.

Verão. Tórrido. Com o calor pesado típico de Trás-os-Montes.

E, aquele dia, que poderia ter sido como outro qualquer, não o foi. Aurora, na flor

dos seus 19 anos, não acordou.

Onze da manhã. O calor desgraçado. Não se falava de outra coisa, não haviam

mais conversas possíveis. Uns pais inconsoláveis. Uma ambulância que saiu disparada, cheia, mas vazia de esperança.

Ninguém entendia o que tinha acontecido à pobre moça, que, simplesmente, parecia ter desistido de viver.

– Se calhar andaba lá c‟uns namoros pela bila, e lá tomou alguma coisa. Ou tava grábida, e andaba a esconder – era a teoria do vizinho, o senhor Zé, homem na casa dos sessenta, pequeno e encorpado, com olhos aquosos, e calvície acentuada.

– Oh, não sejas besta. Deve ter sido aquilo lá do coração, de certeza. Quando a máquina falha… É que não escolhe idades- a mulher, Irene, de uma farta cabeleira grisalha aos caracóis, muito magra e com a cara chupada do tempo, remexia energicamente nos bolsos da bata aos quadrados azuis.

A opinião era, contudo, unanime – que pena! Uma miúda, filha única, com as comunhões todas, a estudar para enfermeira.

Os amigos iam chegando, e ficavam no jardim da casa. A família estava reunida na cozinha. Ninguém tinha muito a dizer, ao contrário do que se passava no resto da aldeia. Braços cruzados, lágrimas copiosas. Um sentimento de impotência.

Aurora estava farta de dar voltas. Já tinha calcorreado praticamente todos os canelhos. Nem os passarinhos cantavam naquele cenário em tons de cinza.

De volta ao centro da aldeia, onde havia um coreto antigo, e com a tinta desbotada nas grades, resolveu sentar-se nos degraus, e esperar que o sonho acabasse. Não havia muito mais a fazer, concluiu.

De repente, o barulho de umas correntes pesadas, a arrastar pelo chão, cortou o silêncio.

– Quem está aí? – o tom era de desafio, apesar do misto de medo e curiosidade.

A resposta sibilou ao ouvido.

– Uma alminha…

Voz cava, grossa, bonita e assustadora. Cuspida das próprias profundezas da terra. Aurora levantou-se, de um salto. No centro do coreto, começou por ver umas patas de cabra, às quais estava preso um tronco nu de homem. Braços definidos, um rosto moreno e agradável, moldado por cabelo até ao queixo. À excepção dos olhos, intimidantes, onde pingavam duas gotas pretas, havia uma beleza incomum.

Um sorriso, que afastou os lábios finos e expôs uns caninos afiados.

– Mas… quem… quem és tu? O que és tu?

– Ora, – recomeçou aquela voz, que agora pertencia àquela figura de lábios finos –sou uma alminha, Aurora.

– Co…como sabes o meu nome?

– Aurora, doce Aurora. Eu sou o Diabo.

– Que sonho estranho…

– Não é um sonho, e, acredita, isto é só o início.

– Não entendo o que o Diabo em pessoa quereria comigo. Eu não sou má! – defendeu-se, franzindo o sobreolho.

– O Diabo, Aurora, só busca uma coisa – almas. Ou por um acaso julgas que uma alma como a minha pode andar só?

 

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