Aquilo que o Diabo é – Parte 3

Sem comentários em Aquilo que o Diabo é – Parte 3352 Visualizações

Desde de que a avó foi a enterrar, Aurora sentia-se estranhamente observada. Depois de uma das madrugadas regadas a cerveja e a risos, deu por si a pensar que viu dois olhos amarelos e penetrantes, onde pingavam duas fendas pretas, a espreitá-la no escuro, enquanto abria o portão de casa. “Um gato”, “imaginação” e um “tens de deixar de beber mais do que três cervejas”, afastaram o pensamento de que algo pudesse estar a persegui-la.

Não fazia sentido nenhum que algo pudesse querer mal a quem nunca fez mal. Aceitando a lei do retorno, onde recebemos de volta o que fazemos, Aurora não achava que tivesse feito males suficientes para que olhos amarelos, parecidos com os do gato Micas lá de casa, a quisessem ou tivessem que espiar.

Não tinha partilhado aquilo com ninguém, porque, simplesmente, não lhe fazia sentido algum.

Voltou a ver o par de olhos na última madrugada em que respirou. Pairava nos pés da cama.

Apeteceu-lhe perguntar quem estava ali, acender a luz do candeeiro da mesinha de cabeceira. Mas, não o fez. Tomou às apalpadelas o medicamento para a doença do coração que a acompanhava desde miúda, ignorando os pontinhos brilhantes, e deitou-se de barriga para baixo, com a cara esborraçada contra os travesseiros.

Estranhando a demora em dar de si pela manhã, os pais deparam-se com um corpo inerte. Temiam aquele dia desde que a filha, a única filha, tinha sido diagnosticada com insuficiência cardíaca. Ligaram para pedir ajuda. A ajuda veio, sem grandes soluções para oferecer.

A Morte tinha vencido, a doença tinha vencido.

Todas as especulações sobre uma vida longa e feliz, de mão dada com um coração fraco, tinham-se esfumaçado.

Só restava comprar flores, um caixão e ligar à família para avisar que Aurora tinha partido, esperavam, para junto do Criador.

O coreto da aldeia parecia demasiado pequeno, diante da imensa figura que dizia ser o Diabo.

-Espera aí… – Aurora esboçava um levo sorriso – Queres dizer-me que morri e que tu me vieste buscar? – um chorrilho de gargalhadas.

-É justamente isso. Tenho-te observado. Até que resolvi que estava na hora.

-Não percebo muito disso, senhor Diabo – começou a rapariga num tom jocoso – Mas desde quando é que tu decides? Não há uma hierarquia qualquer?

O Diabo não estava habituado a ser abordado daquela maneira. Quem pensava ela ser?

-Sim, temos a Morte. Ela encarrega-se de vir buscar as almas, quando bem entende. Ninguém manda nela, tem demasiada personalidade. Depois, entrega-nos a caça, e seguem para cima – apontou com a unha comprida e amarelada para o céu cinzento – ou vão comigo. Ou ficam por aí, a vaguear.

-Estou morta? Morri? – agora Aurora tinha deixado de achar graça à situação. É que o sonho estava a prolongar-se por um tempo infinito.

-Não propriamente. Ainda. Estás numa espécie de limbo. E eu vim receber-te.

-A que devo tamanha honra? – não queria ouvir a resposta.

-Prometeram-me a tua alma. Sangue do sangue.

-Não faz sentido estar a falar com o Diabo, muito menos o que acabas de dizer.

Não tinha medo do Diabo. O Diabo era, em boa verdade, muito cortês. “Deve ser por isso que o mal é tão tentador”, pensou.

Escusou-se autópsia. A doença justificava aquela morte súbita, o que permitiu libertar o corpo rapidamente. Comprou-se um vestido, uns sapatos. Vestiu-se, penteou-se.

Na capelinha da aldeia, não havia espaço para mais um alfinete. Vieram os colegas da faculdade, os amigos de longa data, a família, mesmo a que estava em França.

Os pais à cabeceira do caixão, acompanhados pelas duas melhores amigas, e um corpo borrifado com água benta.

-De certeza que não faz sentido, Aurora?

-De certeza. Quem faria uma coisa dessas?

-A tua avó. Acho que ela nunca chegou a perceber muito bem o que estava a fazer. Uma alma jovem para prolongar a dela. Mas, como te disse, a Morte é muito temperamental, e não concebe que alguém possa viver mais o que o tempo que ela determina.

-O quê? A minha avó trocou-me por mais anos de vida?

-Confiar em pactos comigo é uma loucura. Onde está escrito que tenho que cumprir? – os dentes afiados voltaram a aparecer num sorriso.

-Ela morreu, tens a alma dela.

-Bem guardada, na verdade. A tua é mais fascinante. E morrer não quebra as promessas que deixamos em vida. Assim, posso reclamar-te.

-Não sou um objecto! Que raio de ideia! Quero voltar, deixa-me voltar!

O Diabo ignorou o pedido.

-Queres dar uma volta? – e enquanto se movia, os sons de correntes arrastadas recomeçaram.

O Diabo olhava para a rapariga com um olhar interessado. Pequena, olhos grandes, que pareciam observar em permanência tudo em redor. Seguiu-o sem grandes objecções.

-E onde vou morar?

Fitou-a dentro dos olhos grandes.

-Que pergunta intrigante. Os mortos moram no cemitério. Mas, como alma, podes ficar aqui, neste sítio, para sempre. Que te parece?

-Horrível. Só posso conversar contigo. É um bocado assustadora esta solidão.

-Tens medo de estar sozinha?

-Não… – sem convicção. – Se calhar, não sei! Mas não quero conversar só contigo. Para seres o Diabo, não és tão fascinante como imaginei. – tentou colocar um tom de desdém na voz, mas saiu-lhe demasiado insuflado.

Caminhavam em direção à capela. Aurora via agora o mar de gente que tinha vindo rezar por ela. Correu em direcção às pessoas, tentou tocar-lhe, pedir ajuda. E todos a ignoravam.

O Diabo riu-se.

-Não vai resultar, doce Aurora. Estás noutro plano.

Quis ver-se a si mesma, jazida, sem vida, com flores em volta do corpo.

-Pelo menos o vestido é bonito, mesmo sem cor.

Comments

comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Para envios à cobrança acresce o valor de 2.5€ aos portes Ignorar

%d bloggers like this: