Aquilo que o Diabo é – Final

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O melhor de estar morta era não ter fome nem sede. Nem frio, nem sono. Não sentia nada, nem a dor alheia de quem tinha um funeral pela frente.
-Já chega, Aurora. É isto que te está a acontecer agora, está visto. Quero mostrar- te outra coisa.
Voltaram a caminhar no sentido inverso. Viraram à direita, depois à esquerda, até chegarem à casa de solteira da avó.
Abriu o portão, subiu as escadas, e foi directo à sala, onde estava uma jovem mulher, com livros e velas acesas. Aurora seguiu-o de perto.
Cabelo preto, escorrido, que passava os ombros. Os olhos da avó, mais nova, sem rugas em redor. Havia outro Diabo, idêntico ao anfitrião, de pé, em frente à jovem Ermelinda, que estava por sua vez de joelhos no chão.
-Quero viver o mais que puder, mais anos do que os outros todos. – desejou em voz alta a mulher de outros tempo, enquanto lia umas rezas. O Diabo da recordação apenas observava, sem expressão. – Em troca, ofereço-te a alma de um descendente meu, ainda por nascer. Sangue do meu sangue.
-E neste dia, começaste a esfregar as mãos. – comentou Aurora.

-Tu acreditas mesmo nestas lengalengas, Aurora? Depositava mais esperança em alguém que estuda enfermagem.
-Isto não resulta?

-Não sou fácil de convencer.

E ninguém pode oferecer o que não lhe pertence. Uma ideia confusa. Queria almas, mas não aceitava as que lhe davam.

-Então o que estavas ali a fazer?

-É o meu trabalho, encontrar quem segue linhas travessas. Como vês, não preciso de tentar ninguém. Os humanos fazem isso de forma exímia, quando procuram o que não podem ter e esquecem o que lhes está debaixo dos olhos.
A noite tinha caído, e as pessoas tinham começado a dispersar da capela.

O funeral havia de ser no dia seguinte, durante a tarde, e o corpo dos vivos pedia descanso e comida, mesmo que custasse deixar o corpo sem vida sozinho, acompanhado por flores e velas.
Naquele mundo cinzento, parecia sempre de dia. O tempo também parecia correr de forma diferente. O Diabo tinha lembranças para mostrar em tudo que era canto. A Aurora pequena, as brincadeiras com os amigos, o primeiro beijo no vão das escadas do vizinho, o dia em que fez a mala para sair de casa rumo a uma cidade maior para estudar. As noites com os amigos, e a madrugada em que foi dormir e não acordou.
-Eras tu? Foste tu que eu vi naquela noite?

-Sempre estou presente, de uma maneira ou de outra. Estou em muitos lados, e conheço-te bem.
-Também estavas lá no quarto quando me despi? – corou.

-Já vi muitas raparigas despidas. Se te consola saber, vejo a tua alma, não o teu corpo.
Que figura! O Diabo que não quer saber de mulheres despidas, que não quer almas prometidas de forma indevida, e, ainda assim…
-Tu vieste buscar-me. Porquê?

-Estava aborrecido. – declarou, olhando para as mãos de forma desinteressada. Não havia seguimento naquela resposta. Se calhar ele era mesmo mau.
-Olha, lembraste do Mário? – foi o Diabo a retomar a conversa, enquanto caminhavam.

-Há alguns dias que não falo com o Mário. – Apesar de ficar à nora com a pergunta, respondeu com a verdade. – E agora, como deves compreender, é-me difícil.
-Pois, era só para te dizer que ele anda enrolado também com a tua amiga. Um crápula. Não tiveste pontaria. Ela não gosta dele, e vai deixá-lo a chuchar no dedo.
-Lês o futuro?? – admirou-se Aurora.

-Claro que não, que disparate. O futuro são vocês, humanos, que o fazem. Apenas sei que ele é um idiota e que ela é uma oferecida. Uma previsão para a qual não é preciso ser um génio da divinação.
-Sacanas. Bem que desconfiei. Agora, também, não me importa. Talvez, quando tiver mais experiência como morta, o vá assombrar. Parece-me uma óptima ideia.
-Excelente. – riu o Diabo. A gargalhada mais cristalina e contagiante que Aurora já tinha ouvido. E tão familiar.
Sentaram-se no centro da aldeia, numa mesa de pedra, perto do coreto onde se tinham encontrado. Aurora já nem estranhou a falta de temperatura do banco.
-Nunca te apaixonaste? – quis saber a rapariga. Afinal, era justo. O Diabo sabia mais sobre a sua vida amorosa dela do que ela própria.
-Uma vez. – o rosto fechou-se-lhe. – É difícil amar o Diabo, sabes? Tu vias-te a amar alguém como eu? – Com a mão fez alusão ao corpo, metade homem, metade animal.
-E qual era o problema? Nenhum. – Não acreditava muito bem que tinha dito aquilo. – O amor é ver a alma, não é? E tu, para seres o Diabo, não me pareces assim tão intragável.
E não era.

-Só amei uma vez, e vou amar para sempre a mesma alma. – prosseguiu, como que se não tivesse sido interrompido. – Os tempos podem mudar, os corpos podem mudar, mas a essência, essa, nunca muda.
Passou a noite, veio o dia. Tudo ficava mais real a cada hora de passava. O cheiro a flores, nauseabundo, cobria a capela, e o corpo de Aurora.

Bateu o sino. Cinco da tarde. O calor, que não dava tréguas. Não se podia adiar mais, e aquela era a hora apalavrada para o cortejo fúnebre marcar passo até ao cemitério. A cova estava aberta, funda e escura. Enxuta, pelo sol. Não era um sítio bonito para se morar. O que vale é que era só um corpo que para ali ia, fechado em madeira envernizada e demasiado cara para aquele triste desfecho.
Enfileiram-se bandeira, numa procissão. Pessoas vestidas de cores escuras, a soluçar por detrás de óculos escuros.
-Nunca pensei ver isto.

Do centro da aldeia, já se avistava o cortejo. Aurora tinha vontade de os mandar parar, de saltar para dentro do seu corpo vazio. No entanto, não se mexeu. A companhia do carrasco parecia ancorá-la.
Os lábios finos, os dentes pontiagudos, as mãos, os braços, o corpo. Aquela figura bizarra atraía-a.
Num ímpeto, deitou os braços ao pescoço do Diabo, para o colocar a jeito de receber um beijo nos lábios finos. Os lábios mais quentes que já havia provado. Pareciam duas brasas.
Ele retribuiu. Feliz. Angustiado.

Chegaram ao cemitério da aldeia, ao buraco destinado a Aurora. Pediram para abrir o caixão, num derradeiro adeus.
E, para espanto de todos, a rapariga respirou. Levantou o tronco, num repente, e respirou sofregamente. Ares do mundo dos vivos, que levavam para longe os ares da morte. A cabeça latejava, os olhos ardiam, a garganta parecia cortiça. O coração, antes fraco, batia como um louco.
Uma história que ficará para sempre na memória do povo. A falsa morta, que voltou do outro lado.
O Diabo recusou o amor, por mais uma encarnação. O amor que, mais do que um corpo, é uma alma.
Nessa noite, velou-lhe o sono, sabendo que, desta vez, ela iria acordar.

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