O interesse

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Vivemos num mundo de pouco interesse. Numa actualidade, se assim o preferirem, de pouco interesse. Estamos rodeados de pessoas, à partida, sem interesse.

Isto faz com que tenhamos poucos motivos de interesse. Não, note-se, por falta de disponibilidade para ter interesses, mas porque estes escasseiam. É difícil alimentar um interesse sem uma fonte para tal. Sem termos a mínima ideia de como vamos acender a fornalha do interesse em nós.

Todos os dias acontecem muitas coisas. Sem interesse. Por isso, se espremermos os factos diários, não aconteceu nada. Não teve interesse. Não foi avassalador. Falámos com fulano, com sicrano, beltrano… Vimos isto e aquilo… Lemos aqui e acolá. Mas não fica nada. Não despertou interesse. Fomos por ali e por além, em viagens curtas ou compridas. Fizemos coisas, comemos coisas, dormimos coisas. Só que não teve interesse. Adormecemos já, em boa verdade, os nossos sentidos. Porque sabemos, logo desde o início, que nada tem interesse.

É interessante que pouco tenha interesse. Qual foi a última vez que sentiu interesse?

Talvez haja um mundo de interesses debaixo deste que, como sabemos, não tem interesse algum. Talvez o mal esteja em ver mal, em ouvir mal, em ler mal e em falar mal. Talvez o problema seja não estarmos presentes. Não fisicamente só, mas em essência.

Se estivermos atentas, o maravilhoso desenrola-se à nossa frente, em catadupa. Sem deixar tempo para recuperar o fôlego. É que, afinal de contas, não faltam coisas interessantes, falta é que apertemos o “botão” do interesse em nós mesmos. Que deixemos de ser reles, arrogantes e sabe-tudo. Que paremos de olhar de cima e que tenhamos o tempo que leva a dispensar atenção.

No outro dia, o Tó contava-me que o senhor do café gosta de ver aviões. Tem uma aplicação que lhe diz onde estão, para onde vão e quando vão aterrar. Gosta de ir vê-los a passar no céu: “Olha, anda ver! Vem ali um!”. É giro, sim senhor, mas não foi ver. Não tinha interesse. Depois, para meu espanto, no telemóvel é o Tó que está a ver aviões: “Aterrou um agora no Porto, vês? Era a esta hora que estava previsto chegar. Está a diminuir a velocidade, vê aqui!”.

Agora sabem os dois quando passam aviões e para onde vão, somente porque o interesse ganhou, ele que só vence quando somos capazes de ver para além de nós próprios.

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